COMPETÊNCIA POLÍTICA E COMPROMISSO TÉCNICO
Uma análise do texto: O POMO DA DISCORDIA E O FRUTO PROIBIDO
Dermeval Saviani
O livro escrito pela escritora
Guiomar Mello, tem por seu mestre Dermeval Saviani a feliz manifestação de
transformar o “pomo da discórdia” em um artigo que desmitifica as polemicas de uma imagem equivocada feita
pelos leitores dos livros de Guiomar e Paolo, livros quais devem ser
verificados e não criticados por suas divergências, de dois pensamentos que
hora se encontram, hora são contrários.
Segundo Guiomar, competência
técnica atende a várias características, em primeiro lugar o domínio do saber
escolar a ser transmitido e organizado; entendimento das múltiplas relações
entre os vários aspectos da escola, relações entre o preparo técnico que
recebeu; a organização da escola e os resultados de sua ação; a compreensão
mais ampla entre escola e sociedade ( trabalho e remuneração). Fica evidente
que para ela “competência técnica” tem um caráter não tecnicista, compreende o
domínio teórico e pratico de certas regras externas simplificadas e aplicáveis
mecanicamente a tarefas fragmentadas e rotineiras.
Oura face do “pomo da discórdia”
consiste em realiar a tese da neutralidade da técnica, esvaziando-a de seu
sentido político, algo que foge do que pensa a autora, já que ela acredita que
a escola este impregnada de ponta a ponta pelo aspecto político, e que esta
está a serviço de uma sociedade capitalista que entra em disputa pela
apropriação do conhecimento.
Analisando as duas questões é que
a autora afirma que, justamente porque a competência técnica é política, é que
se tem uma competência técnica dos professores, o que impede o saber escolar
para as camadas dominadas já que o saber é transmitido de modo difuso e
contraditório. Por essa motivo, acredita que o professor foi esvaziado do
conteúdo(saber), o método (saber fazer), restando- lhe uma técnica sem
competência, porém, é preciso deixar claro que essa falta de “competência” não
é culpa do professor, eles assim como as crianças, são vítimas de uma situação
social injusta e opressora.
Existe uma convergência de
pensamentos com relação a essa questão política dos professores, Paolo e
Guiomar, acreditam que para reverter
essa questão é preciso uma organização
coletiva dos professores, a reapropriação do saber curricular escolar,
incluindo o domínio de técnicas e
métodos de ensino.
A escola tem uma posição de
grande contribuição para esse processo, de cumprir sua função política a favor
da classe trabalhadora, esse papel se cumpre pela mediação da competência
técnica, realizando bem aquilo a que se propôs de ensinar a todos os que a ela
tem acesso e estender aos até agora excluídos.
Paolo não teme a competência
técnica, mas o significado que poderão lhe atribuir, ele acredita que uma “nova
competência técnica” deve ser produto de lutas coletivas dos professores,
politicamente organizados e articulados aos interesses dos trabalhadores, deve
ser uma competência pedagógica mais crítica que denuncia as concepções
anacrônicas e elitista da tecnologia educacional dominante.
O “ fruto proibido” artigo de
Paolo, trata do compromisso político como
horizonte da competência técnica, seu primeiro temor que agora acaba
indo por água abaixo, foi um temor ao retorno de um novo tecnicismo pedagógico
disfarçado, sua solução para isso foi apontar a necessidade de historicizar o
conceitos de competência de acordo com as diferentes culturas, no caso a da
cultura- histórico proletária. Como fazer isso? O caminho prioriza a reflexão
crítica e análise polêmica, pois somente a partir daí será possível definir
novos processos técnicos que pressupõem uma explicita e coletiva preocupação
histórica.
Além desse processo, é preciso
dar uma nova interpretação a incompetência pedagógica, uma nova interpretação
do sentido de bom senso dos professores, uma nova visão do papel
assistencialista do professor, visão da impotência dos professores,
incompetência e resistência, nessa nova interpretação o professor entende como
saber – fazer dentro de uma determinada linha política.
Trata-se de aprofundar e
socializar a competência pedagógica decorrente das concepções elitistas e a
tentativa de elaborar e organizar politicamente os professores para novas
técnicas e metodologias de ensino.
Esse novo trabalho de reflexão
crítica e de análise polêmica é um processo longo, passa por criticas cerradas
e finalmente as técnicas deverão ser submetidas as provas práticas. Como
convergência entre os autores podemos dizer que a concretização do compromisso
político é pelo saber fazer que as intenções gerais se materializam, porem esse
saber fazer não pode ser considerado em si, neutro, os elementos técnicos são
determinados por processos históricos.
A prática do professor deve ter
um sentido político sempre, independente da consciência de seu significado, e
tem para Paolo uma grande importância o adjetivo novo, todas as coisas devem
ser repensadas para ganhar um novo sentido pautado na realidade da classe
trabalhadora.
Os mesmos que temem a competência
técnica são os que temem o compromisso político, apropriar-se e viver essas
questões é entender que uma não pode existir sem a outra.
Para Guiomar, a classe
trabalhadora, deve apropriar-se do saber que não é apenas burguês, mas que
atende essa classe, desarticulando os interesses burguês e colocando- a serviço
de seus interesses, já Paolo pensa que, isso não é suficiente, enquanto o saber
for dominado pelo burguês, o proletário deve criticar esse saber, colocando o
ponto de vista da “cultura- histórico proletária” o que fará emergir um novo
saber escolar e por consequência uma nova competência técnica.
É interesse exclusivo da classe
proletária desvelar os mecanismos de exploração, essa ação começou a ser
desenvolvida com a concepção de cultura por força de trabalho crítico já
desenvolvido, enquanto ao saber universal, ainda apresenta uma concepção
metafísica (abstrata e aistórica) e necessita resgatar suas raízes históricas,
pois é assim que ocorrerá o resgate do saber.
Tanto a crítica quanto a denuncia
devem ser aprofundadas e atingir um novo patamar, parafrasenando Gramisci, o
autor nos coloca na fase romântica, na defesa do compromisso político em
educação, a fase clássica passa ser vigente, a partir do momento em que for
encontrado fins para atingir as formas adequadas de elaborar e realizar essa
competência política, que para atingir precisa da competência técnica e competência política, por meio da
reapropriação do saber pela classe trabalhadora, um conhecimento elaborado e
acumulado historicamente.
O texto por si deixa claro que as
ideias centrais de ambos os autores são convergentes, salvo os caminhos que
hora são complementados por trilhas diferentes.
O que importa é a visão de que
uma nova cultura- histórica e proletária deve ser incorporada as escolas a fim
de superar o romantismo, romantismo esse que foi decretado como “ o conhecimento
que deve ser alcançado” é aquele que mantem o capitalismo e todos seus
agregados, os tornando de forma manipuladora como sendo os desejáveis e
corretos.
É por esse motivo que vemos hoje
nas escolas a contradição dos fatos e até mesmo uma visão errônea e excludente
do saber que faz com que grande parte dos alunos se simtam inseguros,
desmotivados, fora de uma pequena parte da população que é hoje a que detém
parte do que era para ser realmente acessível e publico.
Pensar o que é político em
educação, posicionar-se politicamente e a partir daí desenvolver novas competências técnicas é realmente um
caminho, ainda que desafiador, um caminho que tem na educação as portas abertas
para fazermos diferente por nossos alunos, tornando um pequeno grupo dentro de
um todo que, poderá sim fazer a diferença no mundo.
Bárbara Pavez
Leia o texto na integra!
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