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Pesquisando o tema currículo na educação infantil, encontrei esse artigo muito interessante e enriquecedor para nós educadores, tendo em vista que pouco tem publicado referente ao tema.
Espero que gostem!
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publicado em 08/09/2010
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O currículo escolar tomado no meio institucional
sempre se concretizou como uma prática restritamente teorizada, onde o
conhecimento científico finca seu espaço enquanto verdade única e absoluta no
espaço e na aprendizagem. Não obstante, reflexos significativos desta postura
curricular tendem a atingir a educação infantil, que apesar disso busca uma
apropriação deste de modo a construir seu próprio caminhar inovando e
crescendo, atrelado ao mais pleno desenvolvimento da criança, em sua
totalidade.
Palavras-chave: currículo, escola, educação infantil, conhecimento.
Encontrar um significado fiel para a definição de
currículo parece ser uma tarefa complexa. No entanto, se quisermos recorrer à
etimologia da palavra currículo, que vem do latim curriculum, “pista
de corrida”, podemos dizer que no curso desta “corrida” que é o currículo
acabamos por nos tornar o que somos.
O currículo nos remete à idéia apenas do
conhecimento e com isso, nos esquecemos que o conhecimento que constrói o
currículo está essencialmente ligado àquilo que somos ao que nos tornamos: na
nossa identidade e subjetividade. Com isso, entende-se que o currículo pode
ser enxergado como uma questão de identidade (SILVA, 2002).
Ainda, pode ser interpretado em termos
estruturais e relacionais, uma vez que o currículo está estreitamente
relacionado às estruturas econômicas e sociais mais amplas. Nesse sentido, o
currículo não significa um corpo neutro, inocente e desinteressado de
conhecimentos, pois a seleção que constitui o currículo é o resultado de um
processo que reflete os interesses particulares das classes e grupos
dominantes. Ainda nesta perspectiva, a questão importante é o “por que”
diante do conhecimento curricular abordado, pois a partir desse
questionamento haverá abertura para uma seleção mais enriquecedora e objetiva
(SILVA, 2002).
Enaltecendo o contexto institucional escolar, a
forma como as creches e pré-escolas se organiza para produzir processos tais
como os de constituição dos sujeitos no mundo da cultura e de produção de
sentidos e de criação de significados objetiva a construção do currículo no
segmento infantil.
Neste limiar, o currículo não é um corpo formado
por conceitos, informações e princípios que são passados para os alunos, em
geral listado como “conteúdos” a serem aplicados. O currículo é o que as
crianças e professoras/es produzem ao trabalhar com os mais variados
materiais - os objetos de estudo que podem incluir os mais diversos elementos
da vida das crianças e de seu grupo ou as experiências de outros grupos e de
outras culturas que são trazidos para o interior da creche e da pré-escola.
Portanto, não é o conhecimento preexistente que constitui o currículo, mas o
conhecimento que é produzido na interação educacional (BUJES, 2001).
Desse modo, caracteriza-se a idéia de produção do
conhecimento a partir da vivência escolar, aspecto que deveria se aplicar a
todas as etapas do processo que se realiza nas instituições educativas,
incluindo especialmente àquelas dedicadas à Educação Infantil. Por essa
razão, a experiência de educação das crianças já desde a creche implica a
existência de um currículo.
Mais ou menos até os anos 60, as questões que
envolviam o currículo não se faziam motivo de grandes conflitos, apesar de
discussões acerca daquilo que se deveria ensinar às crianças pequenas das
classes populares já ter chamado à atenção de educadores do início do século
XIX. Com isso, o currículo escolar que direcionava as trajetórias escolares
das crianças e jovens, ou seja, o que deveria ser ensinado e como ocorreria
este processo não era foco de grande contestação.
Tão logo, a concepção de que o currículo
representa uma tradição cultural, isto é, aquilo que um grupo construiu e
valoriza uma maneira de transmitirmos uma herança para as crianças e que tal
transmissão não é facilmente realizada, uma vez que aquilo que passa entre as
gerações vai sendo transformado para se ajustar aos novos tempos, enfim,
essas idéias e tantas outras são relativamente recentes e pouco levantadas
para discussões, ocasionando pouco efeito nas novas propostas curriculares
(BUJES, 2001).
Sendo assim, a análise de algumas propostas
curriculares reflete que os conhecimentos selecionados para compor a
experiência curricular costumam estar organizadas em blocos que não dialogam
uns com os outros. Os conteúdos a serem trabalhados são direcionados, de
forma artificial, tomando como base as disciplinas, que acabam ocasionando um
trabalho fragmentado, em migalhas, ou seja, em pedaços. De fato esta forma
organizacional daquilo que se ensina tem sido tomada como a única
possibilidade apreciável no trabalho educacional.
Não obstante, esta perspectiva disciplinar é uma
amarga herança que recebemos da nossa educação, pois têm embarreirado novas
visões mais enriquecedoras de organização do conhecimento escolar.
Há que se pontuar ainda uma pretensão dos
currículos em serem neutros, desconsiderando que as crianças envolvidas pela
experiência curricular são individualmente caracterizadas pelas diferenças
que trazem ao longo de sua trajetória.
Neste contexto, o maior desafio do educador está
em oferecer experiências inovadoras no campo curricular, considerando as
múltiplas manifestações culturais que representam a riqueza do mundo humano.
É necessário ficar claro que esse desafio evidencia que não existe apenas um
único conhecimento, uma única tradição que deve ser socializada por todos.
Assim, também não existe apenas um currículo válido para todos.
Vale ressaltar que a experiência que a criança
vive na Educação Infantil vai além do domínio de informações ou simplesmente
do desenvolvimento do raciocínio, considerações tradicionais do conhecimento.
Essa experiência é caracterizada pelo desenvolvimento de modos de pensar e de
sentir, que implicam em aspectos tais como a sensibilidade, a reação frente à
experiências e o gosto por certas manifestações culturais. E tais resultados
não devem ser desprezados ao pensarmos no tempo e nas experiências que a
criança vive ao longo da Educação Infantil.
Ainda neste período que é a Educação Infantil, a
criança se torna cada vez mais capaz de dominar operações com seu próprio
corpo, desenvolvendo habilidades, destrezas, manifestações quanto ao gosto
etc. Todas essas ações e tantas outras são marcadas pelo que é vivenciado e
aprendido nas creches e pré-escolas em especial, constituindo dessa forma uma
experiência curricular, um currículo na Educação Infantil (BUJES, 2001).
Nesta ampla discussão acerca do currículo no
segmento infantil, ganha especial destaque os Referenciais Curriculares para
a Educação Infantil (RCNEI), uma vez que este segmento é visto como ensino,
sendo igualado ao trabalho do Ensino Fundamental (CERISARA, 2003).
Deve-se considerar que tal concepção sobre o
segmento infantil representa de certa forma, um retrocesso no que diz
respeito ao avanço no desenvolvimento da Educação Infantil, entendendo que o
trabalho com crianças pequenas em contextos educativos deve assumir a
educação e o cuidado enquanto binômio indissociável e não, o ensino. Nesta
perspectiva, cabe a compreensão de que a Educação Infantil deve tomar como
referência a criança e não o Ensino Fundamental.
Pontuando os Referenciais Curriculares, vale a
pena ressaltar que ignorando as características mais marcantes da infância,
em que preponderam a afetividade, a subjetividade, a magia, a ludicidade, a
poesia e a expressividade, o RCNEI apresenta um enfoque que prioriza a mente
sobre o corpo e afeto, o objetivo sobre o subjetivo, o conhecimento sobre a
vivência e experiência, o abstrato sobre o concreto, o produto sobre o
processo, a fragmentação sobre a globalização, o pensamento sobre a expressão
(CERISARA,2003).
A concepção de criança que prevalece no RCNEI é
uma concepção abstrata e diminutiva, que a enxerga fundamentalmente como
aluno, pois apesar desse documento apresentar uma concepção de construção
histórico-social, este não aborda a criança como princípio educativo. Tão
logo, privilegia mais o “sujeito educativo” que o “sujeito criança”.
Desse modo, nota-se que as propostas curriculares
voltadas para a educação de zero a seis anos estão subordinadas ao que é
idealizado quanto à educação voltada para os maiores (Ensino Fundamental),
tendo neste modelo dito educacional do segmento de crianças grandes uma
referência por excelência exemplar (KUHLMANN Jr. 2003).
De forma clara, compreende-se nesta análise
acerca dos Referenciais Curriculares uma compartimentação e um contorcionismo
para encaixar as especificidades da educação da criança na faixa etária dos 0
aos 6 anos, daí o recurso a expressões como “categorias curriculares
flexíveis” (observa-se que uma categoria delimita, enquanto a flexibilidade
retira limites), uma forma de recusar e tornar a repor conteúdos
disciplinares, de modo truncado e desordenado (KUHLMANN Jr.,2003).
Fica evidente que o que ocorreu foi a construção
de uma solução para não deixar o que se refere à educação de crianças
pequenas e suas implicações esquecidas ou inutilizadas. E para tanto, surgiu
a idéia de subordinar esse segmento, de zero a seis anos, a uma estrutura
educacional de outra ordem, que é a do Ensino Fundamental.
Sob este aspecto, as concepções educacionais na
pré-escola, de acordo com a proposta, ficariam assim divididas em duas
grandes correntes: uma delas estaria destinada ao desenvolvimento infantil,
enquanto a outra voltaria suas atenções para o desenvolvimento de
aprendizagens específicas, abrindo espaço alternadamente para cada uma delas,
separadamente. No entanto, vale a pena ressaltar que para fugir de tanta
oscilação, justapõe-se uma corrente à outra, multiplicando-se equívocos
(KUHLMANN Jr.,2003).
A título de reflexão, pode-se levantar alguns
aspectos importantes no contexto educacional infantil à luz de se repensar os
RCNEI. As crianças estão a todo o momento participando de relações sociais,
que não é exclusivamente um processo psicológico, mas cultural, social,
histórico. E essas crianças que procuram essa participação apropriam-se de
valores e comportamentos próprios de seu tempo e lugar, porque as relações
sociais são parte integrante de suas vidas, de seu desenvolvimento. Dessa
forma, se essa criança que vem ao mundo tem o seu desenvolvimento marcado
pela interação com a realidade social que encontra, torna-se viável refletir
sobre uma proposta educacional que seja capaz de oferecer à criança a
possibilidade de conhecer o mundo como um todo. Não se deve pensar, no
que tange a organização curricular, em sistematizar esse mundo para
apresentá-lo à criança, e sim proporcionar a ela variadas experiências
enriquecedoras e diversificadas (KUHLMANN Jr. 2003).
Ainda, entender que as crianças também são seres
sociais e que carregam diferenças é um aspecto a ser apontado na prática
curricular. Reconhecer essa diversidade social e cultural no contexto
infantil não significa aceitar discriminações, como é o caso da escola ou pré-escola
para crianças desfavorecidas economicamente. Ao contrário, entender tal
diversidade compreende uma educação democrática, pois essa diferença em
questão deve ser considerada para que todas as crianças possam alcançar o
mesmo objetivo independente da origem sócio-econômica ou cultural delas.
Apesar disso, tamanha diversidade nos desafia a buscar alternativas
estratégicas necessárias a fim de concretizar esse currículo, que será capaz
de compreender a criança partindo das suas experiências e condições concretas
de vida (KRAMER, 2003).
Com isso, conflitos que ocasionalmente
podem surgir precisam ser levantados e esclarecidos com as crianças, já que
desse modo, a inserção social naquele grupo poderá ser visto como um momento
construtivo.
Continuamente, a compreensão do desenvolvimento
infantil a partir do ponto de vista sensório- motor, sócio- afetivo,
simbólico e cognitivo tendem a favorecer a construção e reflexão contínua
desse currículo, havendo também uma possibilidade de se entender como
aconteceu a construção do conhecimento da criança.
A partir dessas informações, os professores serão
capazes de orientar sua prática pedagógica levantando o que as crianças são
capazes de descobrir e aprender a cada momento, e sobre como aprendem.
Direcionando o desenvolvimento do currículo sob estes e outros tantos
apontamentos, cada uma dessas crianças será valorizada de forma justa,
podendo trabalhar sua autonomia, identidade, cooperação e solidariedade em
conjunto. Para tanto, caberá aos sistemas de ensino e seus personagens
articularem a promoção de um trabalho cotidiano na Educação Infantil que
contemple novas alternativas de construção do conhecimento à luz da
fragmentação de um saber ultrapassado e desconectado do real sentido da
educação hoje em pleno trânsito.
Referências:
BUJES,
Maria Isabel Edelweiss. Escola infantil: pra que te quero? In: CRAIDY,
Carmem, KAERCHER, Gládis. Educação Infantil: pra que te quero? Porto
Alegre: Artmed, 2001.
CERISARA,
Ana Beatriz. A produção acadêmica na área da Educação Infantil com base na
análise de pareceres sobre o referencial curricular nacional da Educação
Infantil: primeiras aproximações. In: FARIA, Ana Lúcia Goulart de,
PALHARES, Marina Silveira (orgs.). Educação Infantil pós-LDB: rumos e
desafios. Campinas, SP: Autores Associados, 2003.
KRAMER,
Sonia (org.). Com a pré-escola nas mãos: uma alternativa curricular para a
Educação Infantil. São Paulo: Ática, 2003.
KUHLMANN
Jr., Moysés. Educação Infantil e currículo. In: FARIA, Ana Lúcia
Goulart de., PALHARES, Marina Silveira (orgs.). Educação Infantil pós-LDB:
rumos e desafios. Campinas, SP: Autores Associados, 2003.
SILVA,
Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias
do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
OLIVEIRA, Zilma Ramos de.
Educação infantil: fundamentos e métodos.São Paulo: Cortez,2002.
HORN, Maria da Graça Souza. Sabores,
cores, sons, aromas- a organização dos espaços na educação infantil. Porto
Alegre: Artmed,2004.
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